Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Gagueira Infantil
por Fernanda Papaterra Limongi


Minha fala parece uma rua cheia de lombadas (Lucas, 9 anos)

Até hoje, há quem aconselhe os pais de crianças pequenas que começam a gaguejar a simplesmente "ignorar o problema" que este desaparecerá com o tempo. De fato, algumas crianças superam suas dificuldades sozinhas, mas - é aí que mora o problema - algumas não. Como saber a que grupo pertence uma determinada criança? A primeira orientação a ser dada para os pais de crianças que começam a apresentar gagueira é justamente não ignorar o problema. Clínicos concordam que o problema da gagueira é muito mais fácil de se prevenir em crianças do que se tratar em adultos. O fato de detectar precocemente e se tomarem as medidas necessárias, é uma das mais valiosas contribuições que um fonoaudiólogo pode oferecer. Algumas perguntas devem ser respondidas e este profissional é o mais indicado para fazê-lo:

- A criança está mesmo gaguejando?
- Se está, quanto o problema progrediu?
- Quando começou?
- Que fatores estavam associados ao aparecimento do problema?
- Quão ciente está a criança do fato de que sua fala está bloqueada?
- Como os ouvintes tentam ajudá-la e como ela responde às suas atitudes?
- Como podemos alterar o ambiente da criança para evitar que o problema se torne pior?

Parte do tratamento de uma criança que está começando a gaguejar é amplamente indireto: trabalha-se para mudar o ambiente através da orientação aos pais. Diversas variáveis devem ser controladas: é útil verificar em que circunstâncias a criança tem as maiores interrupções na fala. Com quem ela mais gagueja? Em que ocasiões (por exemplo: quando está muito cansada, excitada?) A partir do momento em que se descobre como e quando a criança está hesitando, deve-se procurar a modificação destas circunstâncias.

Cabe ao fonoaudiólogo prover sugestões gerais e específicas para mudar a interação no lar e relacionamento pais-filhos a fim de propiciar uma melhora na comunicação. Quando se pode intervir antes que a criança desenvolva medo e reações de fuga e os pais são abertos à orientação, o prognóstico de remissão da gagueira é excelente.

O que pode ser mudado no ambiente da criança:

- Nunca diga para não gaguejar.
- Não faça a criança mais ciente da gagueira do que já está; mas, por outro lado, não faça uma conspiração de silêncio em torno do problema. (Simplesmente ignorar o problema, não resolve).
- Faça a criança se sentir aceita e amada.
- Nunca discuta sua gagueira com outros na sua presença.
- Evite compará-lo com irmãos ou outras crianças.
- Não se deve apenas tentar mudar as atitudes e comportamentos em relação a como a criança fala, mas também tentar modificar as outras atitudes da família, como por exemplo, reduzir a tensão e a ansiedade em geral.

AVALIAÇÃO E TRATAMENTO DE CRIANÇAS EM IDADE ESCOLAR:

Crianças de aproximadamente 6 a 12 anos de idade não estão apenas começando a gaguejar; eles lutam quando falam e podem apresentar sinais de medo, frustração e ansiedade. O ciclo de perpetuação já se iniciou e agora é necessário tratar diretamente da gagueira.

O fonoaudiólogo deve preparar uma descrição do padrão da gagueira da criança:

- Quão freqüentemente ela bloqueia?
- Quão severas são as disfluências?
- Quão complexo é o momento da gagueira?

Deve também notar comportamentos de fuga, reações de medo e sinais de frustração. Também é importante saber como a criança se vê em relação a seu problema.

Para o tratamento desta faixa etária, utilizo um programa baseado na abordagem do condicionamento operante de Bruce Ryan (1975), baseada no pressuposto de que a gagueira é um comportamento aprendido e que este pode ser desaprendido ou modificado suficientemente para capacitar a criança a falar com razoável fluência. Fatores cruciais para a melhora incluem: pais que cooperam e que participam de um programa de aconselhamento; nenhum registro anterior de tratamento mal sucedido; ausência de outros problemas significativos (outras dificuldades); e quando a criança tem outras fontes de sucesso (esporte, música, por exemplo).

Não se deve usar eufemismos como "este probleminha de fala" e evitar a palavra gagueira: as crianças desta idade respondem a uma abordagem aberta, honesta e objetiva.

Fernanda Papaterra Limongi
Fonoaudióloga - PUC-SP
Pós-graduação e especialização em Afasia e Gagueira na University of North Dakota - USA


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Anali Silveira Rodriguez
Cidade/Estado: Porto Alegre/RS
Profissão: Comerciante
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 01/11/2007 16h15min

Pergunta:
Nenhuma fonoaudióloga, até hoje, resolveu a gagueira do meu filho de 8 anos. Ele começou a gaguejar com 4.Vejo que existe muita teoria sobre a gagueira e muito profissional enriquecendo com isso. Não sei mais a quem procurar, talvez apenas uma medicação que ainda não surgiu vá resolver o problema do meu filho.


Resposta:
Prezada Anali:

Em primeiro lugar, o que você quer dizer com "resolveu a gagueira"? Ele se submeteu a vários atendimentos fonoaudiólogicos e não obteve nenhuma melhora? Em nenhum aspecto? Gagueira é um problema complexo e inúmeros fatores estão envolvidos aí. Não existem curas miraculosas, embora o tratamento possa ser bastante eficaz para possibilitar a pessoa a falar com fluência, sem medos, ansiedades e principalmente sem comportamentos de evitação e fuga de situações de comunicação. Fica bastante difícil saber o que não deu certo nos tratamentos de seu filho. Os profissionais que o atenderam eram especialistas em gagueira? Quanto tempo durou cada tratamento? Houve colaboração por parte do paciente? Que outros fatores estão envolvidos? Dependendo do caso, pode ser difícil falar em total remissão da gagueira, mas eu não desistiria. Procure em sua cidade um profissional especialista em gagueira e tente novamente. Mas garanto a você que, quem se dedica seriamente a esta profissão, vê nela muito mais do que uma oportunidade de enriquecer. Tenha a certeza disso.

Um abraço,
Fernanda



Nome ou iniciais: Daniela Maria Maciel
Cidade/Estado: Três Pontas/MG
Profissão: Fonoaudióloga
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 01/11/2007 16h17min

Pergunta:
Oi Fernanda! Sou fonoaudióloga e tenho observado um elevado índice de crianças que apresentam desvios da fluência com esforço/ tensão para executar a fala. Faço as avaliações e orientações adequadas mas quanto ao tratamento não tenho tido bons resultados. As crianças são de 3 a 7 anos de idade. Peço-lhe ajuda e desde já agradeço pela atenção.


Resposta:
Prezada Daniela:
Para melhor responder à sua pergunta, seria importante saber o que você tem feito em relação a tratamento. Que abordagem terapêutica você segue? O que você quer dizer com "não tenho tido bons resultados"? A criança continua gaguejando e/ou apresentando sinais de luta, evitação, medo de situações de comunicação, etc? Na maioria das vezes, apenas orientação aos pais não é suficiente, é preciso intervir diretamente com a criança, principalmente nas faixas de cinco a sete anos. Eu particularmente uso a abordagem de Ryan modificada, mas há muitas outras bem diferentes e também eficazes. Sugiro a leitura do livro "Gagueira - Diferentes Abordagens" organizado por Isis Meira, Editora Cortez, 2002, onde diversas profissionais descrevem suas orientações quanto ao tratamento. Fica difícil discutir porque você não tem tido sucesso se não sei qual a conduta que você está seguindo com estas crianças, além da orientação à família. Estou à disposição para maiores esclarecimentos.

Abraços,
Fernanda



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