Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Gagueira Infantil
por Silvia Friedman & Polyana Oliveira


A gagueira infantil é aqui entendida a partir do funcionamento da linguagem, da subjetividade e do discurso, dentro do paradigma dialético histórico que sustenta a construção de conhecimento nas ciências humano-sociais. Para isso parte-se da compreensão de que a fluência de fala não é um simples fenômeno, mas um "acontecimento complexo". Complexo porque se efetua a partir da mútua influência de, no mínimo, três dimensões que, de diferentes modos, afetam a produção da falante: 1) a orgânica, relativa às condições biológicas do falante; 2) a psíquica, relativa às condições subjetivas do falante; 3) a social, relativa à cultura, seus valores, costumes, mitos e ideologias. Acontecimento, porque em conseqüência da complexidade não pode ser circunscrita e explicada dentro de limites fixos e estanques que sempre se repetem, passíveis de ser expressos em médias e freqüências, como é comum fazer com os fenômenos (Friedman, 2004: 1027).

Por ser um acontecimento complexo o uso do sistema abstrato da língua (idioma) para falar implica a possibilidade de errar e de disfluir, Temos assim que fluir é um acontecimento em que se alternam fluir e disfluir, dentro de padrões singulares a cada falante. Não há fluência absoluta (Scarpa, 1995). A fluência está sujeita ao aparecimento de lapsos, tais como silêncios, repetições, prolongamentos e bloqueios momentâneos. Sobre essa condição, poderíamos, por exemplo, ter uma situação em que certa criança repete 10 vezes a sílaba "quan", antes de completar a frase "quando você vai voltar mãe" e entenderíamos que isso é produto de profunda angustia diante do fato de ver sua mãe sair de casa sem saber quando voltará. Há, portanto, um sentido no disfluir.

Esse sentido, entretanto, não é a compreensão dada às disfluências infantis no cotidiano da nossa cultura. Fruto da crença de que a fluência é absoluta (Scarpa, 95) é comum interpretar-se as disfluência como sendo gagueira (Friedman, 85, 92, 04; Azevedo e Freire, 01) e reagir rejeitando essa forma de fala. A rejeição pode expressar-se de modos explícitos, por meio da interrupção do discurso da criança para pedir que fale com calma; mais devagar; respire; pense antes de falar, bem como por meio de chacotas das disfluências. Pode expressar-se, também, de modos implícitos, por meio de manifestações de desagrado expressas em olhares, em padrões respiratórios, em recusas a responder ao que a criança diz. A expectativa é de que isso faça desaparecer a disfluência da fala da criança.

A esse respeito é preciso considerar que o falante sabe falar, mas não sabe como sabe fazer isso (Vieira, 1990), logo, ele não pode decidir sobre seus erros e acertos. Além disso, a recusa de sentido ao disfluir não mostra ao falante o lugar de seu erro, de forma a dar-lhe alguma condição de corrigí-lo. Isso lhe dará a impressão que toda sua fala está capturada pelo perigo de disfluir. O efeito disso é o silenciamento e/ou a transformação desse silenciamento em tensão para falar, manifestada por movimentos como bater os pés, as mãos, contrair os órgãos fonoarticulátórios ou mesmo substituir palavras por outras tidas como mais fáceis (Azevedo e Freire, 01). O que ocorre é que impossibilitado de localizar e superar o erro no funcionamento de sua fala, o falante desloca-o para a materialidade do corpo ou para a materialidade da língua.

O que há de comum nessas estratégias é que visam postergar ou evitar os momentos das disfluências (Azevedo e Freire, 01). Isso revela: 1) que o falante passou a prever um lugar para elas em seu discurso, como forma de evitá-las; 2) que o falante passou a valorizar a forma e não o sentido de seu discurso como é comum aos falantes em geral; 3) que o falante tende a interpretar os outros como aqueles que sempre o vêem como gago, o que indica que na sua subjetividade passou a constituir-se uma imagem estigmatizada de falante (Friedman, 85,04; Oliveira e Friedman 06).

Tudo isso constitui um funcionamento discursivo desviante que caracteriza a produção de fala com gagueira.

Temos, assim, que enquanto a disfluência é uma manifestação que se dá dentro de um funcionamento discursivo comum a todos os falantes, a gagueira é uma manifestação que dá a partir um funcionamento discursivo desviante, que vai-se constituído na infância, a partir de algo aparentemente bastante simples, como interpretar as disfluências como sendo gagueira.

Iniciamos este texto situando epistemológicamente a explicação dada. Para encerrá-lo, voltamos ao campo epistemólogico e fazemos uma articulação entre a explicação delineada e uma das teorias contempoâneas, do campo das ciências exatas, desenvolvida para dar conta do estudo de realidades complexas. Trata-se da Teoria do Caos surgida nos anos 60 do século passado, que aborda a sensibilidade de sistemas à variação de condições iniciais. Em virtude dessa sensibilidade descobriu-se que uma pequena causa inicial, como o bater das asas de uma borboleta em Hong Kong, pode, tempos depois, produzir um grande efeito como um tornado em Nova York (Munné, 1995). Esta parece-nos ser uma proposta teórica bastante pertinente para representar a visão sobre a constituição da gagueira apresentada.

Silvia Friedman
Especialista em Linguagem; Dra. em Psicologia Social; Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP; Responsável pelo Setor de Gagueira da Clinica Escola CEFAC - Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica

Polyana Oliveira
Especialista em Linguagem; Mestre em Fonoaudiologia; Professora do Curso de Fonoaudiologia da Fundação Lusíada - UNILUZ/Santos-SP

REFERÊNCIAS
Azevedo, N.; Freire, R. Trajetórias de Aprisionamento e Silenciamento na Língua: o Sujeito, a Gagueira e o Outro. In: Friedman, S.; Cunha, M. C. Gagueira e Subjetividade: Possibilidades de Tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 146-160.
Friedman, S. A Construção do Personagem Bom Falante, São Paulo, Summus, 1992.
Friedman, S. Gagueira - Origem e Tratamento, São Paulo, Summus, 1985, 4º ed. revista e ampliada, São Paulo, Plexus, 2004.
Friedman, S. Fluência: Um Acontecimento Complexo, em Ferreira, L.P; Befi-Lopes, D.; Limongi,S. C. O. (orgs.), Tratado de Fonoaudiologia, São Paulo, Editora Roca LTDA, 2004, pp. 1027- 1034, ISBN: 8572415005.
Munné, F. Las Teorias de la Complejidad y sus Implicaciones en las Ciências del Comportamenito, Revistas Interamericana de Psicologia, 1995, v. 29, nº 1, pp. 1-12
Oliveira, P., Friedman,S. A Clínica da Gagueira e o Livro Infantil, Revista Distúrbios da Comunicação, v.18, nº2, São Paulo, EDUC, 2006, ISSN 0102-726 X
Scarpa, E. M. Sobre o sujeito fluente. Caderno de Estudos Lingüísticos, v. 29, jul-dez. 1995.
Vieira, C.H. O Sujeito entre a Língua e a Linguagem, São Paulo, Cortez, 1990.


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Fernando Hebert Silva
Cidade/Estado: Coronel Fabriciano/MG
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 01/11/2007 16h07min

Pergunta:
Eu tive uma gagueira constante na minha infancia, passei por situações de chacota, meus pais muitas vezes ficavam revoltados comigo, a todo momento me corrigiam na minha maneira de falar. Quando estava com 12 anos fiz uma terapia com uma fono, baseada em leituras e processo de respiração, me ajudou, mas não foi o suficiente, mas mesmo assim sempre sendo reprimido em casa. Eu fui criando um medo de conversar, so dizia palavras que sabia que ia ser fluente. Hoje tenho certeza que eu vou gaguejar ao dizer algumas palavras, geralmente as iniciadas em P,B,D,L,M,PR, BR,TR,DR..etc. Fico nervoso ao entrar numa loja pra pedir algo, ir chamar alguem numa casa, pedir informações, marcar uma consulta num medico..etc,começa a formar uma tensao no meu corpo, a lingua trava e a fala nao sai.Estou novamente fazendo terapia e, como a outra, a fono me passa mais eleituras. Gostaria de uma analise de vcs a respeito de tudo isso. Obrigado


Resposta:
Prezado Fernando,
O que você conta de tua gagueira se encaixa, perfeitamente, aos meus estudos e à teoria sobre a origem da gagueira que venho desenvolvendo desde a década de 80. Nem poderia ser de outro modo, visto que a fonte de dados para essa teoria é o discurso da pessoa que gagueja e o discurso é uma porta de acesso para o mundo interior da pessoa. Do que aprendi sobre esse mundo interior, entendo que o tratamento da gagueira deve, fundamentalmente, produzir mudanças nele. Assim, em poucas palavras, o tratamento deve modificar no mundo interior do falante - ou seja, na sua subjetividade:

1-a sensação de ridículo que ele sente em relação à sua fala;
2- a constante sensação de estar sendo cobrado para falar bem;
3- a visão antecipada dos lugares da gagueira na fala que levam evitar e trocar palavras;
4- a reação de tensão corporal ao ter que falar e deve criar em sua subjetividade:
5- Confiança em sua capacidade automática espontânea de falar que já existe;
6- Capacidade de sentir paz diante da gagueira
7- Capacidade de reagir com dignidade diante de outros que de alguma forma tentam ridicularizar a gagueira.

Acho que isso responde com clareza à tua pergunta. Um tratamento baseado em leituras e mais leituras NÃO É um tratamento especializado para a gagueira.

Atenciosamente,
Silvia Friedman



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