Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Causas da Gagueira
por Anelise Junqueira Bohnen


Gagueira é um distúrbio de fluência que acomete pessoas independentemente de raças, de níveis socioeconômicos e culturais e de graus de escolaridade. Antes de falar sobre suas causas, é preciso entender o senso comum, que diz que gagueira tem origem psicológica, advinda de algum susto, trauma na infância, perda de familiares, ou nascimento de outros. Estas supostas "causas" não têm comprovação científica. Por outro lado, as especialidades que compõem as neurociências têm nos dado esclarecimentos sobre gagueira que até há pouco tempo eram inimagináveis. Os neurocientistas têm publicado neuroimagens das áreas do cérebro envolvidas com o processo da fala que permitem ver, com clareza, onde estão e quais são as diferenças entre as atividades neuronais de pessoas fluentes e pessoas não-fluentes. Os estudos provenientes da genética também têm auxiliado significativamente na compreensão dos fatores hereditários relacionados com boa parte das pessoas que gaguejam.

QUAIS SÃO AS CAUSAS DA GAGUEIRA?
Indo direto ao ponto, as causas da gagueira ainda não são completamente conhecidas. Muitos dizem que o pensamento é muito rápido e a boca não acompanha esta velocidade. Na verdade, o pensamento é veloz. Conseguimos ter soluções ou idéias em um piscar de olhos. O problema não é a rapidez do pensamento. É sim a dificuldade do cérebro em coordenador os movimentos necessários para a produção de uma fala fluente. Há uma série de fatores envolvidos com a produção de uma fala gaguejada, e por isso ainda não se pode dizer explicitamente qual é a causa. Muitas áreas do cérebro são responsáveis pela transformação do pensamento num ato motor (a fala), e ainda faltam explicações científicas mais aprofundadas. Portanto, não se pode dizer que gagueira tem causa definida e, menos ainda, que a causa seja puramente emocional ou psicológica. Temos que considerar pelo menos 4 aspectos ao falarmos de causas da gagueira.

1) Aspectos genéticos
Mais de dois terços das pessoas que gaguejam têm parentes de primeiro e/ou segundo graus que também apresentam gagueira ou dificuldades de fala e linguagem. Estudos na genética já encontraram a participação de vários cromossomos relacionados à gagueira.

2) Aspectos psicológicos
Há ainda muitas controvérsias a respeito dos paradigmas que norteiam o entendimento da gagueira. Charles Van Riper, um dos fundadores da Fonoaudiologia nos Estados Unidos, com doutorado em Psicologia, que gaguejava severamente, já em 1939 dizia que gagueira não tinha origem psicológica. Contrariamente às idéias do senso comum, hoje sabe-se que é a gagueira que pode desencadear dificuldades psicológicas relacionadas ao ato de comunicar-se. Quer dizer que dificuldades emocionais podem surgir como conseqüência da gagueira, não como causa. Costuma-se ouvir que as pessoas gaguejam quando estão nervosas. Em parte, isso é verdade. Tensões emocionais e corporais alteram a fluência das pessoas em geral, com ou sem gagueira. É importante saber que para gaguejar não precisa necessariamente haver nervosismo ou tensão.

As pessoas que gaguejam NÃO são nem mais nem menos ansiosas ou depressivas ou inteligentes do que a média das pessoas fluentes. Suas atitudes de comunicação menos positivas são consideradas uma resposta racional à experiências anteriores mal sucedidas, já que a anormalidade da fala provoca uma reação emocional negativa, que altera o nível de certas substâncias neuroquímicas no cérebro.

3) Aspectos neurofisiológicos
Estudos realizados através de várias técnicas de captação de neuroimagens, têm mostrado que a base neurológica da gagueira está associada com algumas anomalias nos mecanismos neurais do controle do ato motor da fala nas áreas responsáveis pela fala e linguagem.

Falhas na ativação normal do lóbulo temporal do hemisfério esquerdo durante a fala, dificultam a organização do planejamento dos sons da fala que é processado nas regiões pré-motoras do cérebro. Já se sabe quais são as várias áreas dos cérebros dos que gaguejam que têm funcionamentos diferentes do que seria esperado. O que ainda se desconhece é por que ocorrem estas alterações.

4) Aspectos sócio-comportamentais
É ruim não saber a causa da gagueira? Sim, é ruim. Mas admitir que se desconhece sua causa é mais honesto do que atribuir à gagueira causas que não são comprovadas pela ciência. Desta forma, o portador tem sua carga de dificuldades diminuída, já que a carga das questões emocionais fica significativamente reduzida.

Numa sociedade de falantes e ouvintes, a fala fluente agrega prestígio, respeito e aceitação. Falas gaguejadas são diferenças fáceis de perceber. Resultam, muitas vezes, em uma menor aceitação do indivíduo no seu meio, e, conseqüentemente, em menor prestígio. Rupturas na fala parecem dificultar os acessos ao mundo dos fluentes na medida em que ainda predominam as idéias do senso comum de que a gagueira tem como origem um problema emocional. Porém, o exercício do respeito e do cuidado é sempre muito benéfico.

* Anelise Junqueira Bohnen, Mestre em Fonoaudiologia pelo IthacaCollege, USA. Doutoranda do Instituto de Letras da UFRGS. Presidente do Instituto Fala & Fluência. Autora do livro Sobre a Gagueira


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Eleide Gonçalves
Cidade/Estado: São Paulo/SP
Profissão: Servidora Pública Federal
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 18/10/2006 07h36min

Pergunta:
Mestre Anelise, O livro de sua autoria é não apenas meu livro de cabeceira, como também meu livro de bolsa! Gostaria de saber sua teoria sobre o porquê da gagueira acometer predominantemente o gênero masculino, sendo que a proporção é de quatro homens para uma mulher. Agradeço-lhe imensamente!


Resposta:
Prezadíssima Eleide, muito obrigada por fazer do meu livro o teu "livro de bolsa".

Como bem podes imaginar, falar sobre causas da gagueira sem que tenhamos ainda uma comprovaão científica sobre este assunto, é sempre uma questão arriscada. O senso comum nos faz permanecer com idéias que não se sustentam e muitas vezes atrasam ou impedem que a vida das pessoas que gaguejam melhorem.

Na verdade, já temos muitas respostas para várias das questões relacionadas com a gagueira. No entanto, ainda temos uma boa quantidade de perguntas aguardando respostas convincentes.

Uma das perguntas ainda sem resposta é o "Por que?".

Em muitos casos já sabemos o como, o onde, o quanto, mas os por quês ainda ficamos devendo.

E daí pode derivar uma série de questões sobre causas e curas. Se não conhecemos completamente as causas, também não conhecemos a cura.

Tua pergunta se encaixa nesta categoria. De fato, há uma incidência maior de gagueira em homens do que em mulheres. Esse é um dado estatístico que já virou consenso. No entanto, a proporão de 4 homens para 1 mulher também ocorre em outras questões ligadas à aprendizagem da linguagem oral e escrita. Os homens parecem ter uma fragilidade maior do que as mulheres nestes aspectos. Não se trata nem de preconceitos, nem de se discutir se é justo ou não.

É assim.

As contribuiões dos estudos provenientes da genética poderão nos esclarecer melhor, assim como os das neurociências. Cérebros masculinos e femininos não são iguais e uma das diferenças está na área da linguagem. Como a gagueira é um distúrbio de linguagem, pode-se imaginar que afetará mais homens que mulheres.

Acredito que brevemente já possamos ter respostas mais objetivas relativas ao por quê.

O importante é que gagueira tem tratamento e que as crianças têm uma excelente chance de ficarem livres dela se tratadas cedo por profissionais especializados no assunto. Isso quer dizer que, mesmo que haja influência da hereditariedade, se agirmos prontamente, a criança pode vir a ser fluente, independente de gênero.

Já os adolescentes e adultos que gaguejam têm apresentado respostas muito boas ao tratamento. Tanto os do gênero masculino quanto os do feminino. Portanto, com todo o respeito aos sentimentos que possas ter sobre essa questão, minha sugestão que não te preocupes muito com isso. Assim que os cientistas tiverem estas respostas, nós ficaremos sabendo e poderemos tomar providências.



Nome ou iniciais: Wladimir Alberti Pascoal de Lima Damasceno
Cidade/Estado: Natal/RN
Profissão: Universitário
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 19/10/2006 05h52min

Pergunta:
Anelise, com relação às causas neurofisológicas tenho lá minhas dúvidas ainda com relação a este ponto. As neuroimagens mencionadas em seu texto, creio que foram fotografadas de cérebros de indiví­duos adultos que gaguejam. Para uma pessoa que gagueja, como você sabe, falar não é simplesmente "abrir a boca e falar". Falar envolve uma série de fatores como o julgamento do interlocutor, de si mesmo como falante, se vai conseguir transmitir a mensagem, etc. Creio que todos esses pensamentos juntos devam interferir no momento da captação da neuroimagem. Logo, em minha primeira opinião, a imagem não seria um sinal de uma falha de determinada área do cérebro, simplesmente. O que comprovaria, em minha opinião, a deficiência na ativação normal do lóbulo temporal do hemisfério esquerdo, seria esta detectação antes mesmo do indivi­duo, ainda criança, apresentar sinais de gagueira. Portanto, gostaria de saber se essas imagens já foram detectadas/estudadas neste grupo de pessoas. Agradeço.


Resposta:
Olá Wladimir, gostei muito desta tua pergunta. Ela me dá a oportunidade de entrar um pouco em assuntos que são mais complexos, e que requerem uma linguagem um pouco mais técnica do que a pretendida pelo Fórum.

Primeiro, como bem podes imaginar, é muito difícil fazer pesquisa de neuroimagens em crianças. Precisa haver concordância da família, a criança precisa ser submetida a uma série de procedimentos complexos, a captação da imagem através da ressonância magnética funcional exige que o sujeito se mantenha o mais imóvel possível dentro de um tubo, receba contrastes específicos, entre tantos. Nada disso é muito facilitador. Os cientistas têm desenvolvido técnicas que mostram a atividade cerebral de crianças com e sem gagueira, para efeitos de comparação, através de formas menos invasivas, como o eletroencefalograma (EEG) e a magnetoencefalografia (MEG).

As investigações têm focado aspectos como lentidão de maturação cerebral, assimetrias de hemisférios, e mudanças de atividades neuronais durante estados de hiperventilação e repouso. Diferenças significativas nestas áreas têm sido relatadas na literatura, especialmente nas regiões parieto-ocipital e fronto-central do cérebro, na comparação entre cérebros de crianças com e sem gagueira.

Essas investigações vão em busca de diferenças em cérebros ainda em crescimento, justamente para se tentar achar algumas respostas para perguntas como a que fazes. Uma das mais instigantes é saber se as diferenças fisiológicas vistas nas comparações entre adultos com e sem gagueira, são provocadas pela gagueira ao longo do tempo ou se estão lá desde sempre.

Como o cérebro aprende por repetição, alguns pensam que de tanto gaguejar, a gagueira faz lá suas "marcas". Outros dizem que se os aspectos genéticos são significativos no aparecimento da gagueira, então essas marcas já estariam lá.

Claro que nada em gagueira é assim tão simples e definido. A quantidade de fatores intervenientes é muito grande. Por isso, sempre é bom lembrar que, para que a fala seja fluente é necessária uma sincronia muito fina entre todos estes aspectos. E esta sincronia começa num comando central, que está no cérebro.

Um grande abraço.



Nome ou iniciais: Luana de Moura Dutra
Cidade/Estado: Ibitinga/SP
Profissão: Aux. Administrativa
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 22/10/2006 09h43min

Pergunta:
Bom dia! Meus avós paternos não são gagos, mas todos os seus 12 filhos são gagos(inclusive mulheres). Meus primos gaguejam e prima apenas 1. Somos em 3 filhos (2 mulheres/1 homem) apenas meu irmão gagueja (qdo esta nervoso, muito mais). Existe alguma explicação pq os homens ficaram mais gagos do q as mulheres?


Resposta:
Prezada Luana,

Que história familial interessante!

São relatos como esse teu que nos impelem a estudar continuamente. Em alguns dos artigos deste Fórum vários profissionais, inclusive eu, já mencionaram os avanços que a genética vem fazendo em direção ao entendimento das possíveis causas da gagueira. Sabemos que a gagueira é muito complexa. A história da tua família é um destes contundentes exemplos da incidência e da predominância da gagueira no gênero masculino.

Dados estatísticos foram publicados recentemente (abril de 2006) no American Journal of Human Genetics. O título da pesquisa relatada é "New complexities in the genetics of stuttering: significant sex-specific linkage signals" (Novas complexidades na genética da gagueira: sinais significativos específicos ligados ao gênero) que abre as portas para as novas descobertas ligadas à complexidade da genética e da gagueira, revelando sinais importantes sobre a questão gênero x gagueira. Os autores estão abaixo.

Suresh R, Ambrose N, Roe C, Pluzhnikov A, Wittke-Thompson JK, Ng MC, Wu X, Cook EH, Lundstrom C, Garsten M, Ezrati R, Yairi E, Cox NJ.

Eles observaram um aumento significativo de evidências sobre os aspectos genétcos, com predominância no gênero masculino, inclusive com diferenças entre gêmeos uni e bivitelinos.

Importante ressaltar que h uma quantidade de pessoas que gaguejam que não tem familiares com gagueira. Por isso, a genética ainda não responde a todas as perguntas. Existem várias doenças e distúrbios da área da saúde que são predominantes em um dos gêneros. Gagueira parece ser um deles.

Então, como ainda não podemos oferecer uma resposta "direto ao ponto", teremos que aguardar um pouco mais pelos achados das ciências.

Obrigada pela tua contribuição e fico à tua disposição para discutirmos mais aspectos sobre a gagueira.

Grande abraço
Anelise



Nome ou iniciais: Rodrigo de Sousa Boaventura
Cidade/Estado: Anápolis/GO
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 22/10/2006 10h29min

Pergunta:
Prezada Anelise: Na minha infância realizei um eletroencefalograma, antes de iniciar o procedimento a médica perguntou para os meus pais se eu sou uma pessoa com gagueira, o que isso interfere ou o quer dizer no eletroencefalograma? O resultado do eletroencefalograma nas palavras do médico foi: um "discreto" problema do lado esquerdo do cérebro, e recomendou que fosse realizado o mesmo procedimento só que em estado de sono induzido. Devido dificuldades financeiras e falta de esclarecimento dos meus pais não foi realizado o exame. O que esse problema do lado esquerdo do cérebro quer dizer? Ah, este mesmo médico no dia em que retornamos no consultório, ele pediu que eu me retirasse do consultório, e disse em particular para os meus pais que eu estava virando gay. Acho que também seja por isso que optaram por não fazer um novo eletroencefalograma.


Resposta:
Olá Rodrigo, tudo bem?

Na tua pergunta estão contidas várias questões. Por isso, a resposta será longa. Espero que seja também esclarecedora. Fico à tua disposição se quiseres continuar a perguntar ou se precisares de mais informações.

Primeiro vamos às minhas dúvidas:

1. Seria bom saber por que teus pais te levaram a um neurologista. Era somente por causa da gagueira ou havia alguma outra preocupação?

2. Em geral, os dados obtidos num EEG em vigília (acordado) podem também ser vistos durante o sono. Às vezes, dependendo do tipo de traçado das atividades elétricas do cérebro que aparecem no exame, o médico entende que é melhor ter uma confirmação e solicita o que chamaste de EEG em "estado de sono induzido". Porém, se tiveres a oportunidade, pergunta a um neurologista sobre o EEG, que ele será muito mais preciso do que eu nesta explicação.

3. Que idade tinhas?

Estas minhas observações têm a ver com as características específicas do EEG, à época em que falas. Este era (e ainda é) um exame usado predominantemente em neurologia para auxiliar no diagnóstico de doenças do cérebro, tais como epilepsias, desordens do sono e alguns tipos de tumores cerebrais. Quando estavas "na infância", e isso seguramente foi há pelo menos uns 10, 12 anos atrás, ainda não se usava EEG para se observar alguma relação com a gagueira.

4.. Como mencionaste "discreto problema do lado esquerdo do cérebro", mas não esclareceste que tipo de problema poderia ser este, tentar te explicar isso seria inadequado da minha parte.

O que posso te dizer, numa tentativa de fazer a relação que acho que estás me perguntando, é que a fala fluente requer que as áreas do cérebro que controlam a produção motora, a prosódia e a organização sintático-semântica precisam funcionar sincronizadamente. O hemisfério esquerdo tem um papel dominante na organização da sintaxe e do significado das palavras, na prosódia gramatical, além dos aspectos motores da transformação do pensamento em um ato motor. O EEG pode mostrar essas dificuldades através da quantidade de atividade neuronal que ocorre ao lado esquerdo. A magnetoencefalografia (MEG) também tem sido usada. Pesquisadores realizaram a captação de neuroimagens da ativação cortical por MEG durante provas de leitura de listas de palavras com sujeito fluentes e não fluentes. Os resultados mostraram que todo o sistema de linguagem, incluindo a preparação da fala e a geração da prosódia correta estão parcialmente disfuncionais nos cérebros dos que gaguejam.

Falantes fluentes demonstram uma atividade cerebral seqüencial ligada à programação articulatória e à preparação motora. Parece que os falantes não fluentes apresentam um padrão invertido destas atividades. Os que gaguejam iniciam a programação motora ANTES da preparação do código articulatório. Esses achados foram detectados durante os primeiros 400 milisegundos depois que uma palavra foi emitida. Durante essas provas de produção da fala, o córtex pré-motor e o córtex motor direitos mostram ativação consistente em falantes fluentes e mostram inatividade nos que gaguejam. Parece haver uma disfunção nestas sincronias nos que gaguejam. O hemisfério direito controla a prosódia afetiva. Ambos os hemisférios controlam os movimentos da boca, da língua e da laringe. A integração das funções bilaterais da linguagem é essencial para a produção de uma fala fluente.

Quanto a associar gagueira com homossexualidade: essa é mais uma das tantas idéias descabidas do chamado senso comum. Como bem podes imaginar, para muita gente, inclusive profissionais da medicina, a causa da gagueira era tida como sendo emocional. Da mesma forma que o homossexualismo.

Vê só o que Van Riper escreveu, l nos idos de 1939 (ele era o doutor em psicologia e ajudou a criar a Fonoaudiologia nos Estados Unidos):

"Na essência, os profissionais que têm estas convicções acreditam que a gagueira uma manifestação externa de desejos reprimidos de satisfazer necessidades internas como as seguintes: satisfazer o erotismo anal ou oral, expressar hostilidade atacando e difamando o ouvinte ou permanecendo infantil....Alguns gagos podem possuir este tipo de causa, mas eles constituem uma minoria. Neles, a gagueira é sintomática de uma neurose primária. Mas há muito mais gagos nos quais a neurose, caso exista, é secundária. Com isso, quer se dizer que o indivíduo torna-se defensivo, temeroso, porque [grifo dos autores] gagueja - a anormalidade da fala provoca uma reação emocional negativa" (VAN RIPER e EMERICK 1997, p.265).

Para finalizar, te deixo algumas referências bibliográficas. Me ajudaram a te responder melhor.

Um grande abraço.

1. http://www.psiqweb.med.br/dsm/comunic.html
2. SALMELIN, R; SCHNITZLER, A; SCHMITZ, F; FREUND, HJ. Single word reading in developmental stutterers and fluent speakers. Brain 123, 2000:1184-1202.
3. POOL KD, DEVOUS MD SR, FREEMAN FJ, WATSON BC , FINITZO T. Regional cerebral blood flow in developmental stutterers. Neuroscience Research Center , University of Texas , Southwestern Medical Center , Dallas .
4. ROSS, ED; THOMPSON, RD; YENKOSKY, J. Lateralization of affective prosody in brain and the calossal integration of hemispheric brain functions. Brain and Language. 56, 1997:27-54.
5.VAN RIPER, C. e EMERICK, L. Gagueira (cap. 9). In: ­Correão da linguagem. Porto Alegre : Artes Médicas, 1997.



Nome ou iniciais: Maria Theresa Farias Silveira
Cidade/Estado: Fortaleza/CE
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 22/10/2006 10h38min

Pergunta:
Primeiramente, queria agradecer à você por sua palestra, pois esclareceu-me, e muito, em algumas questões. Valeu a pena! Minha pergunta é: se não temos conhecimento das causas da gagueira, podemos dizer que não temos a cura da gagueira por falta desse conhecimento?

Resposta:
Oi Maria Theresa, tudo bem?

Fico muito feliz em saber que colaborei com o teu entendimento sobre algumas das tantas questões que envolvem a gagueira. Também gostei muito da experiência em Fortaleza. Obrigada.

Respondendo tua pergunta e indo direto ao ponto, a relação que se estabelece é essa mesma que falas. Se desconhecemos a causa, desconhecemos a cura.

Essa é uma das razões pelas quais a Abragagueira está tão empenhada neste Fórum. Contribui significativamente para esclarecer assuntos como este.

Vê que o lema da campanha é: GAGUEIRA NÃO TEM GRAÇA. TEM TRATAMENTO.

Não é mesmo um lema maravilhoso? Não diz que gagueira tem cura, mas mostra que é possível estar fluente, e que um tratamento com fonoaudiólogos especializados no assunto contribui significativamente para a conquista de uma fala fluente. Ainda estamos aprendendo a entender a gagueira.

Se gagueira tivesse cura em adultos, provavelmente não estaríamos aqui fazendo esse intenso esforço de mostrar para as pessoas que gaguejam - e todos os interessados - que há excelentes possibilidades de se obter fluência.

Quantas patologias que conheces que não têm cura? E que, mesmo assim, não impedem as pessoas de continuar a viver, trabalhar, a se apaixonar? Pois espero que consigas tudo isso. Não deixa a gagueira te impedir de usar tua energia em buscar uma vida mais feliz.

Grande abraço.



Nome ou iniciais: Isa Almeida
Cidade/Estado: Taubaté/SP
Profissão: Fonoaudióloga
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 05/11/2006 11h23min

Pergunta:
Anelise, exames de imagem vêm auxiliando em grande escala a Fonoaudiologia, principalmente no que diz respeito à linguagem. Minha dúvida é quanto às inovações, nas avaliações fonoaudiológicas: quais tem sido utilizadas e qual a contribuição terapêutica que esses exames de imagem possibilitam? Agradeço


Resposta:
Ol Isa, boa pergunta essa.

Os exames de imagem têm sido usados para desvendar várias dúvidas que ainda temos sobre a gagueira, como fatores desencadeadores ou como a linguagem se processa tanto em fluentes como em não fluentes, entre tantas. Aqui no Brasil, a captação de neuroimagens com técnicas sofisticadas que permitem ver as atividades neuronais em cérebros falando e gaguejando ainda são pouco comuns. São exames de custo muito alto.

Por isso, estar muito atenta às publicações na área deve ser uma atitude rotineira para os fonoaudiólogos que trabalham com gagueira. Temos obrigações de informar corretamente às pessoas que gaguejam que nos procuram, sem achismos, com precisão, sem estimular o pensamento mágico da cura em cinco minutos.

Questionas sobre como as imagens auxiliam a avaliação e a terapia.

Na impossibilidade da ressonância magnética funcional, do PET Scan e de outras técnicas de captação de imagens, eu tenho usado como rotina, solicitar aos que gaguejam um exame de fibronasolaringoscopia. É um exame de imagem simples, de baixo custo, que tem me mostrado as atividades e características laríngeas dos que gaguejam durante a fala espontânea e durante uma leitura. Tenho encontrado achados muitíssimo interessantes. Alguns deles apresentei no Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia de Salvador, no início deste mes.

As imagens obtidas do funcionamento das laringes e das bases da língua têm me permitido visualizar onde as tensões ocorrem, de que forma se configuram e em que situações. Como dados de avaliação, são muito preciosos. E, a partir daí, tenho desenvolvido técnicas e procedimentos terapêuticos que têm se mostrado eficazes.

Ainda não temos acesso fácil aos exames de neuroimagens como os relatados na literatura cientifica. Fico atenta e sempre estou na expectativa sobre o que os pesquisadores estão descobrindo a respeito desse distúrbio de fluência tão complexo. Porém, com as imagens obtidas através da fibronasolaringoscopia tenho conseguido resultados muito satisfatórios em terapia.

Espero que tenha colaborado.

Se tiveres interesse em saber dos protocolos que estão sendo utilizados, entra em contato comigo através da Comissão Organizadora do Fórum.

Muito obrigada e um abraço.



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