Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Causas da Gagueira
por Silvia Friedman


Depois de um tempo tratando de pessoas com gagueira comecei a considerar que esse modo de falar poderia não ser causado por um problema orgânico, como propõem as teorias em geral, porque de todos os pacientes (ou pais dos pacientes) ouvia relatos sobre períodos de melhora e de piora e de circunstâncias em que a fala se apresentava sem gagueira.

Essas circunstâncias eram do tipo: falar sozinho, falar com crianças pequenas, falar com animais de estimação. Chamou-me a atenção que nelas era evidente uma relação entre o aparecimento da gagueira e a possibilidade de ser julgado pelos outros, já que as situações sem gagueira eram sempre aquelas em que o julgamento do outro está fora de questão.

Isso levou-me a pesquisar a possibilidade de ser a gagueira causada pelo modo com funciona o psiquismo diante de certos valores, crenças e ideologias que circulam na sociedade. Para tanto estudei terias psicossociais e psicanalíticas que mostravam como valores, crenças e ideologias passados de pessoa a pessoa no convívio no cotidiano, atuam como moldes do funcionamento psíquico.

No caso da gagueira o estudo mostrou-me que esses moldes são a ideologia do bem falar e rejeição de padrões de fala disfluentes na infância.

A ideologia do bem falar circula na sociedade (não apenas no Brasil, mas no mundo em geral) e produz nas pessoas uma visão ou crença de que a fala saudável deve ter pouca ou nenhuma disfluência.

A disfluência, porém, é parte integrante e natural da fala fluente das pessoas. Ela aparece em graus variados de acordo com os diferentes estados emocionais do falante e da maior ou menor familiaridade que ele tem com aquilo que pretende dizer.

Sem essa compreensão, padrões disfluentes de fala que comumente aparecem no discurso das crianças são entendidos com sendo gagueira e são rejeitados nas relações de comunicação. Os modos típicos dessa rejeição, alguns explícitos, outros velados, são: frases como fale direito, respire antes de falar, fique calmo e pense antes de falar; risadas e imitações da disfluência; não olhar para o falante; não responder ao que ele diz, entre outras possibilidades.

Se a criança da valor a essas reações dos outros, no seu psiquismo poderá forma-se uma imagem de mau falante, um falante que ela não gostaria de ser. Isso poderá levá-la a ter medo de sua maneira espontânea de falar. Ao mesmo tempo, sua vontade natural será de tentar corrigir a fala para não ser rejeitada.

Essa pode ser uma situação psíquica bastante problemática para a produção da fala se entendermos que todos nós, os falantes, sabemos falar, mas não sabemos como falamos. Sendo assim, se por um lado a imagem de mau falante leva a criança temer sua fala espontânea, porque nela podem aparecer disfluências, de outro ela não sabe como fazer para falar de outro modo e corrigir-se.

Essa condição de fala tem como efeito o aparecimento de tensões musculares na pronuncia dos sons das palavras. A disfluência, assim, modifica-se de tal modo que, além de trocas de palavras, surgem bloqueios na fala, muitas vezes acompanhados também de movimentos com o corpo (cabeça, mãos, pés), na tentativa de soltar o som bloqueado.

Nessa condição de fala, quanto mais o falante tenta falar bem, mais se produzem tensões na sua fala as quais mantém e reforçam a imagem de mau falante, que, por sua vez, mantém as tensões. Tem lugar, assim, ao padrão de fala conhecido como gagueira.

Chegamos aqui uma breve explicação da causa da gagueira baseada num funcionamento psíquico moldado por ideologias que circulam na sociedade, no caso, a ideologia de bem falar.

Uma explicação mais detalhada e esclarecedora pode ser acessada no site no link Textos e Livros "Gagueira na Infância" (disponível em español e português).

Silvia Friedman
Fonoaudióloga e Doutora em Psicologia Social
Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Elaine Gonçalves
Cidade/Estado: São Paulo/SP
Profissão: Professora de Educação Fí­sica
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 18/10/2006 04h44min

Pergunta:
Prezada Dra. Sílvia Friedman, Admiro o conjunto de seu trabalho, porém uma dúvida me intriga: como sua teoria explica a tendência familial à gagueira, muitas vezes surgindo em parentes que raramente têm contato entre si? Obrigada!

Resposta:
Prezada Elaine,

A teoria que defendo explica a tendência familial a gagueira da seguinte forma:

Há um confusão socialmente difundida entre gagueira e disfluência. A fala é um acontecimento complexo porque envolve não apenas o organismo, mas também o psiquismo e as relaões com a sociedade (onde falamos, para quem ou com quem falamos, de que falamos). Desse modo ninguém tem uma fluência absoluta quando fala. Ao longo da fala temos lapsos, quebras hesitaões, repetiões, em maior ou menor grau dependendo do momento, do nosso estado interior, da familiaridade ou desconhecimento do assunto, da reaão dos outros. Assim a fala contem fluência e disfluência. Se vc observar a fala das pessoas logo notará que todos disfluem, uns mais, outros menos. Pensando agora na criança, os estudos recentes em aquisião de linguagem mostram que a criança, por volta do terceiro ano de vida, disflui e frequentemente disflui muito. Disflui porque, nesse período, ela se apropriou das regras básicas da língua e, ao falar frases mais longas, mais complexas, interiormente (mentalmente) faz reformulaões, auto correões, para adequar seu discurso à fala do adulto. Esse momentos internos de auto correão ou reformulaão, externamente manifestam-se como hesitaão e repetiões. Ex."de-de-de deixa eu tomar sorvete agora mãe". Quer dizer, enquanto a criança está disfluindo sua mente está se organizando para produzir a frase. E ai que incide a ideologia de bem falar, conforme expliquei no meu texto neste FORUM online, com reaões verbais dos outros como: pensa, fala devagar, etc.; ou as risadas e imitaões dos outros que como expliquei estão na base da constituião da gagueira.

Expliquei tudo isso para, finalmente, dizer que o que é hereditária é a disfluência. Há uma tendência, que considero ser inata, para maior ou menor facilidade de organizar o discurso, assim como há tendências inatas para todas as habilidades humanas. As pessoas com menor facilidade de organizaão discursiva disfluem mais. Então o que se vê nas famílias é a presença dessa tendência a disfluir. Se a reaão dos outros for de aceitaão você terá uma pessoa que disflui, mas não se envorgonha, não sofre por isso, não quer controlar o fluir de sua fala, provocando com isso tensões que vão se automatizando ao falar e caraterizam o do modo gaguejante de falar. Nessa direão também que se pode falar em hereditariedade de idéias, ou seja, herda-se socialmente a ideologia de bem falar, que rejeita o disfluir natural e, desse modo, em famílias com tendência a disfluir podem se constituir muitos gagos. Seria interessante orgnizar uma pesquisa com familias em que se observa a tendência a disfluir e não se constituem gagos (conheço várias porque lido com isso o tempo todo no consultório) para verificar como se dão as interaões discursivas..

Atenciosamente,
Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Wladimir Alberti Pascoal de Lima Damasceno
Cidade/Estado: Natal/RN
Profissão: Universitário
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 18/10/2006 07h43min

Pergunta:
Silvia, sua teoria aborda muito a questão de crenças, valores e auto-conceito. Diante desta situação, como você analisaria o uso da Programação Neurolinguí­stica em terapias fonoaudiológicas?


Resposta:
Wladimir,
Sobre como o uso de teorias da Programaão Neurolinguística em terapias fonoaudiológicas, de modo geral, penso que não se pode fazer os já bastante criticados empréstimos de teoria para aplicaões pouco fundamentadas. Do ponto de vista da minha proposta, que

fundamenta de modo detalhado o funcionamento subjetivo e discursivo do modo gaguejado de falar, penso que a abordagem da Programação Neurolinguística faz bastante sentido e ela me serve de apoio para o manejo terapêutico no modo como ela está formulada por Bandler e Grinder por exemplo, no livro Sapos em Principes, da editora Summus.

Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Alisson
Cidade/Estado: N/A/indefinido
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 18/10/2006 07h46min

Pergunta:
Doutora Silvia, creio que o seu método de tratamento é compatí­vel com o meu tipo de gagueira. Já fiz um tratamento, mas atualmente, não estou conseguindo me livrar da imagem de mau falante em certas palavras. O pior é que a cada palavra nova que eu falo e tenho problemas, já fico com medo de dize-la outra vez. Tem dias que falo fluentemente, mas tem dias que tenho recaí­das. Tem acontecido muito de eu prolongar as palavras iniciadas com a letra "A" e bloquear em palavras que iniciam com as letras: TR, PR, CR, P, T, K ! Geralmente são essas que eu tenho maiores problemas. Gostaria de saber a opinião de vc com relação ao meu caso e também uma possí­vel sujestão. Obrigado!


Resposta:
Prezado Alisson,

Também acho que o meu método é compatívél com teu tipo de gagueira. Acho que vc deveria procurar um terapeuta para tratá-la, porque há muita coisa que vc poderia descobrir sobre tua gagueira que te ajudaria bastante a superá-la. Você não disse de onde é para que eu possa sugerir um terapeuta. Se vc quiser, no meu site há uma nova sessão de conversa com internautas e alí você pode encontrar muitas dicas e explicaões para as condiões que vc relata como dias fluentes e recaidas e gaguejar em certos sons.

Um abraço
Silvia



Nome ou iniciais: Atul Friedrich Gawande
Cidade/Estado: Malmo, Suécia/indefinido
Profissão: Neurocirurgião
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 18/10/2006 07h48min

Pergunta:
Diante das platitudes desconexas que tenho observado em determinadas discussções sobre as causas da gagueira, acho importante fazer algumas considerações oportunas. Devo admitir que frequentemente fico admirado com a alienação que percebo por parte de determinados terapeutas em relação àquilo que vem acontecendo no universo da pesquisa cientí­fica. Não há mais como ignorar que, desde a última década, a possibilidade de estudar o cérebro em funcionamento transformou a compreensão que se tinha da gagueira e a transportou para um novo território de estudo. Dez anos atrás, qualquer um poderia formular qualquer tipo de teoria: anormalidades do aparelho fonador, desordem neurótico-psicogênica, hiperativação da amí­gdala, conflito entre os hemisférios direito e esquerdo pela primazia da fala, e assim por diante. A lista é bem extensa. Só que hoje em dia, os tempos são outros e o ní­vel de rigor cientí­fico para a proposição de uma teoria está bem mais elevado, tendo em vista o acúmulo de estudos neuroimagí­sticos, genéticos e farmacológicos já realizados. Desse modo, se você defende uma determinada teoria, precisa necessariamente explicar antes todo o conjunto de evidências experimentais já documentadas. Por exemplo: 1. Sua teoria consegue explicar por que determinados agentes farmacológicos aliviam a gagueira e outros a recrudescem sensivelmente? 2. Ela consegue explicar por que certas regiões cerebrais apresentam um padrão de ativação modificado em gagos? 3. Ela consegue explicar a hiperatividade do sistema neurotransmissor dopaminérgico e ao mesmo tempo o baixo ní­vel de atividade em determinadas regiões dos núcleos da base verificada em gagos? 4. Ela consegue explicar a semelhança sintomatológica entre a gagueira e outros distúrbios que afetam os núcleos da base, como as distonias específicas à tarefa? 5. Sua teoria consegue explicar a indução de fluência gerada por tarefas como o canto, a fala em coro e o feedback auditivo alterado levando em conta as diferenças no modo como o cérebro controla movimentos regulados por comandos de prompt internos ou externos? 6. Se sua teoria aponta para uma disfunção em determinada área do cérebro, por que essa disfunção não aparece nos exames de neuroimagem? 7. Sua teoria consegue explicar o componente genético da gagueira? Portanto, não se pode mais sair por aí­ e afirmar qualquer coisa na tentativa de explicar a gagueira. Você pode até escrever algo que lhe pareça convincente ou satisfatório, mas não poderá mais reivindicar um caráter cientí­fico àquilo que está dizendo. Esta é a grande diferença para a qual alguns ainda não abriram os olhos. Ainda resta muito a fazer e descobrir, mas aquilo que já se sabe impõe um benéfico cerceamento no campo das possibilidades especulativas para as causas da gagueira.


Resposta:
Diante de sua explanação devo considerar que a visão positivista, organicista de vocação experimental em ciência, em nome da qual você advoga, já não é mais considerada a única possibilidade de se fazer ciência honesta, há tempos. Desde que Thomas Kuhn esclareceu a questão da "ciência normal" e seu movimento por meio de "paradigmas dominantes", ficou bem claro que, dentro dos limites de seu própro paradigma, o cientista fica cego para o que se passa em outros. E muitos cientistas ainda não abriram seus olhos para isso. Desse modo, acreditam que a ciência que fazem é a única permitida e a única possível, trata-se do que muitos epistemólogos chamam de monismo metodológico.

Meu trabalho com gagueira é absolutamente sério e está firmemente fundamentado em teorias (não organicistas) do campo da psicologia social e psicanalítico. Tenho uma vasta produão em livros, capítulos de livros e artigos científicos, que podem ser lidos por quem quiser compreender a proposta. E o mais importante é que tenho os resultados clinicos de 33 anos de trabalho com pessoas gagas, que atestam a eficácia do meu ponto de vista e sustentam a teoria. Portanto, ele não é um ponto de vista nem desinformado, nem alienado e inteiramente é capaz de responder a todas as questões colocadas em seu e-mail. Entretanto, para quem não conhece os conceitos básicos de minha postulaão teórica, os quais não poderiam ser deduzidos do pequeno texto sobre causa da gagueira (escrito propositadamente de forma muito acessível) apresentado neste FORUM, esse seria um trabalho para muitas horas de texto e esse é um trabalho que, infelizmente, não posso assumir neste momento.

Atenciosamente,
Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Paulo Amaro Martins
Cidade/Estado: Campinas/SP
Profissão: Servidor Público
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 22/10/2006 09h55min

Pergunta:
Dra. Silvia! A melhora da auto-imagem é benéfica para o ser humano como um todo e deve ser considerada em qualquer tratamento, porém utilizá-la como fator primordial é idiotizar o gago. Ao negar as evidências da causa orgânica à gagueira a senhora causa um enorme prejuí­zo a nós, pessoas que gaguejamos, pois de uma só tacada nos responsabiliza por sermos gagos e faz com que nos sintamos culpados por não conseguir deixar de gaguejar. A senhora entende que gagueira e disfluência são sinônimos? obrigado.


Resposta:
Prezado Paulo,
Concordo em que "a melhora da auto-imagem é benéfica para o ser humano como um todo e deve ser considerada em qualquer tratamento". Mas não é verdade que utilizá-la como fator primordial é "idiotizar o gago". Entendo que tua impressão venha da maneira como imagina o tratamento, visto que você afirmou que: "de uma só tacada nos responsabiliza por sermos gagos e faz com que nos sintamos culpados por não conseguir deixar de gaguejar". Isso está totalmente inadequado e, de forma nenhuma, a abordagem que proponho passa por esse tipo banalizações. Não sei se foi o teu caso, mas muitas vezes pessoas não especializadas no atendimento da gagueira fazem tratamentos sem supervisão, dizendo que trabalham na linha x ou y, e pela falta de conhecimento, acabam banalizando o atendimento. O paciente, então, só pode culpar a linha de atendimento pelo insucesso, porque ele não teria como saber que o profissional que o atendeu não conhecia o adequado manejo terapêutico na linha que ele afirmou seguir.

Se você entende que há evidências de que a causa é orgânica, muito bem, tem todo o meu respeito. Eu, por meu lado, com base em 30 anos de atendimento à pessoas gagas, demonstro, claramente, em meus trabalhos científicos, as evidência que me levam a defender que a causa da gagueira é psicossocial (portanto, evidentemente, não há culpa alguma da parte da pessoa gaga - eu é que seria uma idiota se pensasse assim).

Como base nessa visão psicossocial da causa da gagueira, proponho um tratamento que, em linhas gerais, se move da seguinte forma:

Levar o paciente a compreender como a sociedade e a cultura vigentes atuaram de forma a constituir, em seu mundo interior, uma imagem estigmatizada de falante

Levar o paciente a compreender de que modo essa imagem gera certas características em seu modo de falar, que o levam a produzir fala gaguejante em certas circunstâncias e fluente em outras.

Trabalhar na modificação das características que produzem o modo gaguejante de falar e, ao mesmo tempo, trabalhar nas características que produzem o modo fluente.

Tudo isso envolve um trabalho no qual se dá um novo significado as crenças que a pessoa tem sobre si, sobre os outros e sobre sua fala.

Os resultados dessa forma de tratamento são surpreendentes. Tenho muitos pacientes (de diferentes idades e profissões) que podem atestar ou testemunhar sua eficácia. Eles podem contar com deixaram de controlar a fala 24h por dia e passaram a, simplesmente, se deixar fluir.

Não se trata portanto de um tratamento banal, ou de uma abordagem de senso comum, em que se tenta convencer o paciente de que ele pode falar e se culpa o paciente se ele não conseguir. Isso nem poderia ser chamado de terapia.

O tratamento que proponho é bastante complexo e para realizá-lo adequadamente o profissional precisa conhecer, psicologia social, psicanálise, psicolinguística e anatomia e fisiologia do corpo humano.. Termino comentando que todos os pacientes a quem dei alta, sempre afirmam que não foi um tratamento que modificou apenas sua fala, modificou sua forma de ver e viver a vida. Então estou segura que nunca causei prejuízo a nenhuma pessoa que gagueja, muito ao contrário.

Atenciosamente,
Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Eduardo Souza
Cidade/Estado: Belém/PA
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 23/10/2006 07h20min

Pergunta:
A pessoa que no trabalho, na escola ou em qualquer lugar, for motivo de risos e chacota, por que gagueja. A constituição ampara essa pessoa, ela pode entrar com uma ação judicial, alegando ser discriminado por ser gago?


Resposta:
Caro Eduardo,

1- Risos e chacotas da parte dos outros por gaguejar são abusos morais que, como tal, sempre poderiam ser denunciados. Mas seria muito dificil gerar as provas concretas para instruir um processo juridico e de fato penalizar os responsáveis. Assim, um processo jurídico em torno disso só desgastaria e exporia socialmente aquele que se queixa, sem levar a um resultado satisfatório para os acusados. O que temos de concreto são as organizaões como a ABRAGAGUEIRA que aos poucos, como em todo processo histórico, vai modificando a opinião pública sobre gagueira e vai criando uma nova consciência social a respeito dela na qual respeito e dignidade se aliam à uma fala com gagueira.

2- Sabendo de gagueita o que sei, que aliás, em grande parte, aprendi com meus pacientes, te faço uma sugestão que se você puder aplicar terá também um cunho terapêutico.

O primeiro ponto é que vc, desde já, se sinta uma pessoa digna (como o são todas as pessoas) e, portanto, com todo direito a ser como exatamente como você é (isso a constituião nos garante, não é mesmo). Então aguarde a próxima vez em que houverem risos ou chacotas. Quando acontecerem, olhe bem nos olhos de quem o fez por alguns segundos e mova a cabeça num gesto afirmativo apertando um pouco os lábios (como quem diz: "é, tá certo, a gente tem que encarar cada coisa!"). Você pode também agregar em voz alta (se sentir liberdade para isso) algo como: "é bem facil debochar dos outros!"

Se houver uma imitação direta do teu modo de gaguejar, olhe bem nos olhos de quem o fez e diga: "Gostei, tá melhor que o meu!" "Faz de novo para eu apreder" ou coisas do tipo.

O que quero te mostrar é que há muitas formas de responder com dignidade, e sem revolta, às reaões indignas dos outros. E quando encontramos essas respostas, bloqueamos as reaões indignas, porque elas só tem graça quando humilham. Perdem totalmente a graça quando são denunciadas na sua indignidade. E há um ganhao a mais, fazer isso é muito terapêutico no sentido de que te fará muito bem.

Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Jose Ailton Barbosa dos Santos
Cidade/Estado: Maceió/AL
Profissão: Funcionário Público
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 24/10/2006 06h52min

Pergunta:
Doutora Silvia, Faz uns vinte anos que iniciei, com uma profissional da área, um tratamento de gagueira. Basicamente o tratamento consistia em ler páginas de um livro, porém, no decorrer de dois meses, a minha fonoaudióloga resolveu, paralelamente ao tratamento, que seria imprescindí­vel o acompanhamento de um psicólogo. Na primeira sessão de psicoterapia, me apresentei ao psicólogo, sentei no divã. Esperei que ele fizesse algumas perguntas mas, por incrí­vel que pareça, durante todo o tempo que estive no consultório a única frase desse profissional foi: "fique à vontade, fale o que quiser e quando quiser". Como não tinha nada pra falar, uma vez que a minha fonoaudióloga já tinha "passado minha ficha", portanto ele já estava ciente do problema, não tive outra alternativa senão ficar lendo uma revista enquanto ele me observava durante toda sessão (uma hora). Resultado; Nunca mais fui à fonoaudióloga, muito menos ao psicólogo. Pergunta: É necessário o acompanhamento desse profissional? Obs. Preciso urgentemente de tratamento, pois, já perdi muitas oportunidades profissionais. Já fui bancário (BB), assumi uma gerência mas, por causa da gagueira, tive que largar. Saí­ do banco. Passei para Polí­cia Rodoviária Federal. Não cheguei a exercer o cargo com receio de gaguejar na hora de pedir os documentos ou de explicar o motivo das multas. Atualmente sou fiscal de tributos do município (uma tortura), a toda hora tenho de explicar o por quê dos autos de infração, solicitação de documentos etc. A realidade é que tenho de conviver com isso, pois tenho que manter minha famí­lia. Gostaria que a senhora indicasse uma profissional qualificada aqui em minha cidade. Estou disposto a dar continuidade a esse tratamento, com ou sem psicólogo. obrigado.


Resposta:
Prezado José Aillton,

O que posso te dizer é que, de fato, há bem poucas pessoas realmente capacitadas a tratar de gagueira, justamente, porque ela é um problema bem complexo e, portanto, seu tratamento também o é. Apesar disso, infelizmente, muitos profissionais, talvez porque não percebam que não sabem fazer o tratamento, acham que alguma coisa poderá acontecer, mandando o paciente ler páginas de um livro, por exemplo, como aconteceu com vc. Para ler páginas de um livro a gente nem precisaria de um terapeuta, não é mesmo? Como nada acontece como o paciente numa abordagem desse tipo, o profissional, em vez de assumir o seu não saber, manda o paciente para um profissional de outra área, que, por sua vez, também não é especializado e mais uma vez nada acontece. No teu caso vc foi vítima de um velho chavão, qual seja: 1- o fonoaudiólogo tenta arrumar a fala, por meio da leitura, acreditando que está trabalhando com a mecânica da fala. 2- Como isso não dá certo, conclui que deve haver também problema psicológico envolvido e o manda a um psicólogo.

O paciente por sua vez, diante desse estado de coisas, sabiamente desiste de se tratar porque parece claro que ninguém está entendendo o seu problema. É melhor nenhum tratamento que um tratamento errado.

Na abordagem que proponho não há necessidade alguma de do acompanhamento de psicólogo, porque a abordagem já contém aspectos psicossiciais, psicanaliticas articulados a aspectos linguísticos e morfofisiológicos. A gagueira está ligada a uma imagem negativa que a pessoa tem de si como falante e a um modo de funcionar no discurso que produz tensões ao falar e que decorre dessa imagem de si. O tratamento aborda essa parte mental, subjetiva e o modo como ela se relaciona com a produção concreta da fala modificando ambas. Infelizmente não sei de ninguém que faça esse trabalho em Maceió.

A especialização no tratamento dos problemas da fluência ainda tem muito para crescer. Se tiver vontade de saber mais sobre a linha de tratamento que proponho há muitos textos interessantes no meu site

Atenciosamente
Silvia Friedman



Nome ou iniciais: Jose Ailton Barbosa dos Santos
Cidade/Estado: Maceió/AL
Profissão: Fiscal de Rendas
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 05/11/2006 11h29min

Pergunta:
Doutora Silvia, Faz uns vinte anos que iniciei, com uma profissional da área, um tratamento de gagueira. Basicamente o tratamento consistia em ler páginas de um livro, porém, no decorrer de dois meses, a minha fonoaudióloga resolveu, paralelamente ao tratamento, que seria imprescindí­vel o acompanhamento de um psicólogo. Na primeira sessão de psicoterapia, me apresentei ao psicólogo, sentei no divã. Esperei que ele fizesse algumas perguntas mas, por incrí­vel que pareça, durante todo o tempo que estive no consultório a única frase desse profissional foi: "fique à vontade, fale o que quiser e quando quiser". Como não tinha nada pra falar, uma vez que a minha fonoaudióloga já tinha "passado minha ficha", portanto ele já estava ciente do problema, não tive outra alternativa senão ficar lendo uma revista enquanto ele me observava durante toda sessão (uma hora). Resultado; Nunca mais fui à fonoaudióloga, muito menos ao psicólogo. Pergunta: É necessário o acompanhamento desse profissional? Obs. Preciso urgentemente de tratamento, pois, já perdi muitas oportunidades profissionais. Já fui bancário (BB), assumi uma gerência mas, por causa da gagueira, tive que largar. Saí­ do banco. Passei para Polí­cia Rodoviária Federal. Não cheguei a exercer o cargo com receio de gaguejar na hora de pedir os documentos ou de explicar o motivo das multas. Atualmente sou fiscal de tributos do município (uma tortura), a toda hora tenho de explicar o por quê dos autos de infração, solicitação de documentos etc. A realidade é que tenho de conviver com isso, pois tenho que manter minha famí­lia. Gostaria que a senhora indicasse uma profissional qualificada aqui em minha cidade. Estou disposto a dar continuidade a esse tratamento, com ou sem psicólogo. obrigado.

Resposta:
Prezado José Aillton,

O que posso te dizer é que, de fato, há bem poucas pessoas realmente capacitadas a tratar de gagueira, justamente, porque ela é um problema bem complexo e, portanto, seu tratamento também o é. Apesar disso, infelizmente, muitos profissionais, talvez porque não percebam que não sabem fazer o tratamento, acham que alguma coisa poderá acontecer, mandando o paciente ler páginas de um livro, por exemplo, como aconteceu com vc. Para ler páginas de um livro a gente nem precisaria de um terapeuta, não é mesmo? Como nada acontece como o paciente numa abordagem desse tipo, o profissional, em vez de assumir o seu não saber, manda o paciente para um profissional de outra área, que, por sua vez, também não é especializado e mais uma vez nada acontece. No teu caso vc foi vítima de um velho chavão, qual seja: 1- o fonoaudiólogo tenta arrumar a fala, por meio da leitura, acreditando que está trabalhando com a mecânica da fala. 2- Como isso não dá certo, conclui que deve haver também problema psicológico envolvido e o manda a um psicólogo.

O paciente por sua vez, diante desse estado de coisas, sabiamente desiste de se tratar porque parece claro que ninguém está entendendo o seu problema. É melhor nenhum tratamento que um tratamento errado. Na abordagem que proponho não há necessidade alguma de do acompanhamento de psicólogo, porque a abordagem já contém aspectos psicossiciais, psicanaliticas articulados a aspectos linguísticos e morfofisiológicos. A gagueira está ligada a uma imagem negativa que a pessoa tem de si como falante e a um modo de funcionar no discurso que produz tensões ao falar e que decorre dessa imagem de si. O tratamento aborda essa parte mental, subjetiva e o modo como ela se relaciona com a produção concreta da fala modificando ambas.

Infelizmente não sei de ninguém que faça esse trabalho em Maceió. A especialização no tratamento dos problemas da fluência ainda tem muito para crescer. Se tiver vontade de saber mais sobre a linha de tratamento que proponho há muitos textos interessantes no meu site



Nome ou iniciais: Rafael Cavendish
Cidade/Estado: Porto, Portugal/indefinido
Profissão: Médico residente
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 05/11/2006 11h33min

Pergunta:
A terapeuta não está levando em conta que a gagueira é um distúrbio com taxas de prevalência relativamente constantes em todas as culturas, o que sugere ser algo provocado por um fator mais genérico, não relacionado portanto a caracterí­sticas especí­ficas de uma sociedade ou induzido por influências culturais, psicossociais, etc. Para endossar o que estou dizendo, visite os mais de 200 blogs sobre gagueira em todo o mundo e verifique as semelhanças. Você pode começar por esse aqui, na Ásia: http://asiastutteringassociation.com/


Resposta:
Prezado Rafael,

Vou discordar de vc considerando que as taxas de prevalência de gagueira, relativamente constantes em todas as culturas (fato do qual estou perfeitamente ciente), combina perfeitamente com minha abordagem a respeito da Ideologia de Bem Falar como ponto inaugural do modo gaguejante de se produzir com falante. O fato é que todos as cultura, especialmente as competitivas, vivem esse tipo de ideologia, que ignora a diferença entre disfluir e gaguejar e que acredita que a fala é um fenômeno homegêneo em si mesmo, passível de ser medido em termos da frequência de produção de sílabas por minuto e fixado em taxas médias que estabelecem a normalidade e a patologia. Acontece que a fala não é um fenômeno homogêneo. Ela é um acontecimento complexo. Acontecimento, porque não pode ser circunscrita e explicada dentro de limites fixos e estáveis que sempre se repetem e complexo, porque se efetua a partir da interação de pelo menos três dimensões: a orgânica, a psíquica e a social. A questão central de nossa discordância reside no fato de que você raciocina a partir do paradigma positivista, um paradigma que acredita que para estudar um objeto é preciso isolá-lo do seu contexto, para controlar as variáveis que sobre ele possam incidir. Que acredita também a parte é igual ao todo, de tal modo que tudo pode ser estudado por meio de amostras. Recortando a gagueira do todo ao qual ela pertence (a fala e sua complexidade), só se pode procurar a sua causa dentro do corpo da pessoa que a produz. Assim, se a pessoa é gaga deve haver algo de errado no organismo dela. Se há gagos em todas as culturas, certamente é algo de comum no organismo de todos. Ou seja, é uma visão profundamente mecânica da realidade da fala e do falante. Após atender pessoas gagas por 10 anos, os dados empíricos que obtive me levaram a sair do paradigma positivista e a assumir outro paradigma, o dialético histórico. Nesse paradigma se entende que realidades complexas não podem se olhadas em partes isolodas. Elas tem que ser olhadas como todo em movimento. E é dessa forma que passei a olhar a gagueira e a entender esse importante aspecto: a ideologia do bem falar, difundida por todo o planeta, inclusive entre profissionais da área médica e psicológica.

Essa ideologia mantém uma generalizada ignorância entre as significativas diferenças entre fluir e disfluir de um lado e o gaguejar de outro, justamente porque não consegue ver a dialética que liga o fluir e o disfluir, para além de qualquer taxa média preestabelecida . Assim, dentro dessa ideologia, diariamente, em todos os lugares do planeta, se estabelecem relações de rejeição de padrões disfluentes de fala e se moldam as subjetividades dentro uma visão estigmatizada de si como falante. O produto dessa imagem de si é o nascimento do desejo de controlar a fluência de fala, para não ser rejeitado. E o produto desse desejo de controle é justamente a gagueira, porque a fluência de fala não é passível de controle, assim, ao querer fazê-lo, o que surgem são tensões. Quanto mais se quer controlar mais se gagueja, com tensões, ou com o uso de truques, ou trocando palavras e quando não quer controlar, porque a imagem de falante não está importando, eis que o fluir aparece. Mas o falante gago tem medo de seu fluir e se o percebe, e, principalmente se percebe que há outros ouvindo, surge novamente a gagueira. A gagueira é como uma prisão sem grades e o que me mantém firme nessa visão, é ótimo resultado que tenho obtido nos 30 anos de atendimento terapêutico dedicado as pessoas com gagueira. Um atendimento que faz a pessoa entender e se apropriar dos constituintes dessa prisão e recuperar sua confiança na capacidade automática de fluir na fala que nunca a abandonou.

Atenciosamente
Silvia Friedman



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