Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Causa da Gagueira: por que ou para quê?
por Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly


A gagueira é um tema de muitas discussões, de muitas propostas de intervenção e também dá margem a várias interpretações teóricas. Dentre elas, a que está relacionada à minha prática é a psicanálise.

Em virtude da pouca literatura ainda em nossos dias sobre o estudo da gagueira a partir da psicanálise, creio ser necessário contar um pouco de minha trajetória neste campo.

Meu interesse pela gagueira começou com os estudos do mestrado, quando apresentei um caso de gagueira em um menino de 9 anos, cuja família apresentava o mesmo quadro no pai e no irmão mais novo e a mãe tinha várias dificuldades de articulação de fala. O mais interessante no caso era que o menino designado como gago não apresentava disfluência alguma, constituindo, pelo contrário, uma fala hermética e perfeita, sem hesitações ou percalços - o que também soava estranho ao ouvinte.

Naquela época, levantei algumas hipóteses e comecei a pensar que a gagueira deveria ser compreendida em seus sentidos e não em sua causalidade. E isto foi sendo corroborado pelos outros casos com os quais trabalhei e o estudo de alguns referenciais que enfatizavam aspectos não patológicos da gagueira, como a observação de que a disfluência acontece sempre em momentos de construção da linguagem.

Unindo o referencial psicanalítico a estas propostas de um estudo não patologizante da gagueira, compreendi muito mais o gago que a sua aparência - a gagueira e não mais me voltando para a causa enquanto uma entidade linearmente datada - por que. Cada vez mais a clínica me faz pensar na importância do sentido desta produção - para quê.

O estudo do sentido da gagueira só pode ser pensado a cada sujeito, de acordo com seu percurso na constituição de si mesmo como um ser de linguagem. E tal construção se dá pela ação conjunta entre terapeuta (no caso, o analista) e o sujeito gago.

Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly: Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia, Doutora em Psicologia Clínica, Pós-doutora em Filosofia da Educação


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Vivian S. Ferreira
Cidade/Estado: Osasco/SP
Profissão: Fonoaudióloga
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 16/10/2006 07h28min

Pergunta:
Olá Roberta. Gostaria de saber se existem grupos de pesquisas sobre a gagueira a partir da psicanálise. Também gostaria de referências sobre o tema.


Resposta:
Oi, Vivian,
Os estudos acerca das relações psicanálise-gagueira são poucos e, mesmo assim, como advêm de pessoas da área clínica, nem sempre tais pessoas formam grupos de estudos.

Alguns textos meus:

CUNHA, M. C. & GOMES, R. E. O. G. Fonoaudiologia e Psicanálise: uma reflexão sobre a gagueira e o inconsciente. In: PASSOS, M. C. Fonoaudiologia: recriando seus sentidos . São Paulo. Plexus, 1996.
KELLY, R. E. O. G. O buraco na língua ou. Há especificidade no sintoma da gagueira? In: CUNHA, M. C. & FRIEDMAN, S. Gagueira e Subjetividade: possibilidades de tratamento. São Paulo. Artes Médicas, 2001.
KELLY, R. E. O. G. Gagueira. . . é o quê, mesmo?!? . Revista Distúrbios da Comunicaão. (14): 163-172, 2002.
IETO, V. & KELLY, R. E. O. G. Olha para mim. A gagueira como demanda de reconhecimento no espaço familiar. Revista Distúrbios da Comunicaão . (14): 361-377, 2003.

De outros autores:

Anzieu, A. Da carne ao verbo: mutismo e gagueira. In Anzieu, D. Psicanálise e Linguagem. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
Bloom, L. Notes for a history of speech pathology. The Psychoanalytic Review, 65(3), 433-463, 1978. à Este texto faz uma compilaão de todos os trabalhos que discutem a relaão psicanálise-gagueira desde Freud (1888) até 1972, é fundamental para sua compreensão.
Coriat, I. The psychoanalytic conception of stammering. The Nervous Child, 2, 167-171, 1943.
Fried, C. Behavior therapy and Psychoanalysis in the treatment of a severe chronic stutterer. Journal of Speech and Hearing Disorders, 37(3), 347-372, 1972.
Fortier-Blanc, J. & Beauchemin, M. Le rôle des parents dans le traitement du bégaiement. Réeducation Orthophonique, 38(203), 19-30, 2000.

Vivian, eu estou em SP a cada duas semanas, às sextas, pois tenho aula na psicopedagogia. Caso queira, podemos conversar.

Um abraço,
Roberta Ecleide Kelly



Nome ou iniciais: Sandra Merlo
Cidade/Estado: São Paulo/SP
Profissão: Fonoaudióloga
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Sim
Postado em: 24/10/2006 06h49min

Pergunta:
Prezada Roberta, Parabéns pelo texto e pela sua apresentação do último sábado no evento presencial. Gostaria de perguntar se você tem acompanhado os avanços da neuropsicanálise (principalmente com o Mark Solms) e se você acredita que esta união das neurociências com a psicanálise realmente vai trazer bons frutos para a prática clí­nica. Abraços, Sandra Merlo

Resposta:
Oi, Sandra,
Fiquei muito feliz com o evento e com o Fórum. Para mim foi uma grande oportunidade de participar e ouvir tantas coisas importantes e novas para mim.

Eu conheço alguns estudos de autores que estão tentando estabelecer conexões Neurociências/Psicanálise. Porém, esta minha aproximação das Neurociências se fez por uma via diversa da gagueira. Após alguns anos de me dedicar à gagueira, comecei a receber casos em clínica de afásicos. E comecei a estudar as várias facetas da afasia, inclusive a neuropsicológica. Creio que esta área pode nos auxiliar muito a compreender as nuances do inconsciente.

Se tiver material sobre Neurociências, Psicanálise e Gagueira, me passe (ecleide@gmail.com).

Tudo de bom!
Um grande abraço



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