Fórum Online - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Considerações sobre as causas da gagueira
por Regina Jakubovicz


Quando se fala em causas da gagueira, a tarefa se assemelha a de um "detetive a procura das provas de um crime". Ele terá de examinar todas as possibilidades ligadas ao acontecimento. A proposta aqui não será muito diferente, irá se procurar evidencias que possam explicar como a gagueira se instala num individuo sadio numa determinada idade.

Já de inicio, ao tentarmos definir o que seja gagueira, deparamos com certas dificuldades. Existe um consenso de que a fala com gagueira contenha repetições de silabas e palavras, prolongamentos e bloqueios de sons. Infelizmente a definição em si já traz problemas, uma vez que pessoas consideradas não gagas também falam com estas mesmas características tendo como diferença uma menor quantidade de interrupções. Outra dificuldade a ser citada é a analise de quem são os juizes que decidem quem está gaguejando ou não. De onde saem os critérios usados pelo ouvinte? A partir das características de sua própria fala? A dificuldade de delimitação estabelece o primeiro empecilho para classificar quem gagueja e quem está apenas hesitando na fala. O inicio da gagueira situa-se entre a idade de 2 a 6 anos e nesta idade são muito comuns as hesitações. Essa faixa de idade sugere também que a criança começa a gaguejar depois que domina sua linguagem o suficiente para transmitir as idéias de maneira mais rápida de modo a manter uma conversação. Será que a habilidade lingüística tem alguma coisa a ver com o inicio da gagueira? Fica difícil provar, já que a maioria das crianças consegue passar por essa fase muito bem e um grupo muito pequeno não. O que separaria os dois grupos? Culpa de pais exigentes que escutam gagueira onde talvez ela não exista passando a partir de suas "escutas" a dar conselhos aos filhos do tipo: "fala direito.... respira e fala... para de repetir," ou culpa da própria criança que não aceita sua maneira de falar?. O ato de falar é um ato simples, mas ele pode se tornar complicado e acabar resultando num esforço motor já típico da gagueira instalada. A criança que está apenas começando a falar tem por habito fragmentar e fala em unidades menores (a silaba) duas ou mais vezes se sente uma dificuldade motora em falar o todo. Este fato pode nos explicar as inúmeras repetições de silabas encontradas na grande maioria das crianças de 2 a 6 anos.

Será que a criança não consegue organizar o pensamento de maneira mais rápida? Não se pode afirmar ainda que o pensamento tenha áreas especificas no cérebro. Tudo indica que se elabore o pensamento utilizando todas as áreas corticais disponíveis. Para pensar, possivelmente utilizamos, sobretudo, áreas cerebrais do parietal e do temporal, impulsos bio-elétricos nas sinapses e a ativação e inibição nos neurônios. Para falar utilizamos áreas corticais motoras especificas no lóbulo frontal, usamos o Bulbo para a atividade da respiração/fonação e a ativação e inibição de músculos nos pares cranianos. Áreas cerebrais diferentes não podem ser nem comparadas nem responsabilizadas pelo complexo ato de pensar e falar.

Se a silaba ou a palavra está sendo repetida ou prolongada e o gago não faz a modificação do que é falado como deveria, pode-se pensar que esteja havendo três possibilidades:

1. Quem gagueja faz uma analise mal feita do que acabou de falar, não percebendo a repetição ou o prolongamento, o que corresponde a dizer que há um defeito no seu feedback auditivo.
2. Quem gagueja não analisa o que é falado, e como todos nós corrigimos automaticamente pequenas falhas na emissão da fala, pode-se pensar que esteja havendo falha no sensor maior ou no sistema nervoso central.
3. Quem gagueja faz a analise do que acabou de falar, mas a pessoa não sabe ou não consegue corrigir a falha. O problema neste caso é com a unidade executora os músculos e órgãos da fala.

Será que a criança gaga nasce com o mecanismo de feedback defeituoso? Pode ser. É o caso de se analisar as trocas fonêmicas/fonéticas muito comum nas crianças menores como as dislalias (trocas de sons) e os casos de atrasos de linguagem em que falta o feedback lingüístico dado pelos pais. Sabe-se que no adulto gago a introdução de um atraso no feedback auditivo (DAF) gera fluência. Falta determinar porque o defeito no feedback acontece, quando e como ele começa.

Todos sabem e, sobretudo os gagos sabem, que quando se canta não há gagueira. Este fato sugere que poderia haver uma desordem a nível motor ou cerebral no ritmo da fala, uma vez que alterações no ritmo trazem fluência. Não resta duvida que as batidas do ritmo atuam no cérebro de alguma maneira. É o caso de se observar: as batidas do coração, o ritmo das ondas cerebrais, a maneira de se ninar as crianças. Pode ser que o sinal do ritmo alerte o cérebro que a próxima silaba ou palavra deve ser dita em seguida trazendo a fluência ou mesmo que o ritmo facilite o encadeamento das palavras.

Existe sempre a possibilidade da criança ficar ansiosa ao comunicar-se por exigências suas internas ou do meio ambiente. A ansiedade normalmente transforma o momento de falar numa luta. O que era natural vira um habito de falar ou uma gagueira instalada. Infelizmente a gagueira na criança nunca é diagnosticada pelo especialista; no caso o fonoaudiólogo, mas por leigos; como: pais, avós, pediatras e até vizinhos. Por outro lado, existe ainda a hipótese de que a gagueira possa ser um habito aprendido. Assim como o cão de Pavlov aprendeu a associar o toque do sino ao comportamento de salivar a criança pode ter aprendido por associação à frases do tipo; "fala devagar... pensa antes de falar... fica mais calmo e fala", ao habito de modificar sua fala na hora de falar. Surgem duvidas sobre a habilidade para falar, seguida de uma luta para falar melhor e ai nasce o habito de gaguejar toda vez que vai falar. Uma vez o habito instalado torna-se muito difícil voltar-se atrás sem uma ajuda especializada.

Grande parte das pesquisas feitas indicam que um numero expressivo de indivíduos ficaram curados da gagueira espontaneamente, ou seja, sem tratamento. Que perguntas este fato nos traz? Houve uma maturação cerebral ou uma nova organização no cérebro? Foi estabelecida uma nova seqüência articulatória? O Feedback auditivo organizou-se de modo a fornecer informações corretas de como a pessoa está falando? Foi aprendida uma nova maneira de falar, com menos luta ou esforço? A pessoa perdeu o medo ou a ansiedade ligada à fala e conseguiu controlar-se de modo efetivo?

Não temos respostas precisas para todas as duvidas levantadas aqui, mas das perguntas feitas é possível elaborar planos de tratamento efetivos. No tratamento da gagueira infantil e do adulto é preciso modificar:

- A conscientização dos pais sobre o que seja realmente uma gagueira instalada.
- O meio ambiente da criança e como se deve lidar com a ansiedade.
- A organização e maturação lingüística.
- As habilidades motoras da fala.
- A conscientização das repetições e dos bloqueios.
- O ritmo de fala e a maneira de falar.
- O habito de repetir silabas, prolongar os sons e prender a respiração no momento de falar.
- A visão de quem gagueja sobre o fato de ter medo no momento de falar.

Regina Jakubovicz
Fonoaudióloga - CRFa 906
Doutora em fonoaudiologia pelo Museu Social Argentino
Professora da Universidade Estácio de Sá
Autora de livros sobre gagueira


Perguntas e Respostas


Nome ou iniciais: Tatiane Alencar Silva
Cidade/Estado: Franco da Rocha/SP
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja? Não
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 22/10/2006 10h12min

Pergunta:
Oi Regina. Tudo bem? Acabei de ler o sue texto e gostaria de fazer a seguinte pergunta: "Existe sempre a possibilidade da criança ficar ansiosa ao comunicar-se por exigências suas internas ou do meio ambiente. A ansiedade normalmente transforma o momento de falar numa luta. O que era natural vira um hábito de falar ou uma gagueira instalada." A partir das suas palavras, gostaria de saber como você trabalha os sentimentos expressos por uma criança. Seu foco está no gago (Sentimentos) ou na gagueira (Disfluência)? Obrigada, Tatiane


Resposta:
Tatiane

O trabalho deverá ser nos dois sentidos, uma vez que fica impossível determinar o que está provocando a gagueira; a pressão dos pais ou a pressão interna da criança ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Trabalha-se então os pais no sentido de não corrigir, dar conselhos ou chamar atenção para o problema e trabalha-se a criança no consultório para ela aceitar sua maneira de falar e não se sentir rejeitada porque fala "diferente". Peço à criança para identificar as disfluências na fala das coleguinhas (que certamente existirão), mostrando que as pessoas em geral falam com repetições e que nem por isso são rejeitadas pela sociedade.

Posso fazer exercícios de falar fluente e falar repetindo para mostrar a possibilidade de ter controle sobre sua fala.

Resumindo: meu foco será nos sentimentos do gago e na sua gagueira (as disfluências).

Grande abraço Tatiane
Regina



Nome ou iniciais: Otília Noleto Bezerra
Cidade/Estado: Brasília/DF
Profissão: Dona de casa
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 22/10/2006 10h14min

Pergunta:
Regina, Como vês, sou uma adulta gaga e as dificuldades são maiores. Fiz fonoaudiologia até a 4a fase e desisti, pois buscava minha cura através do curso e vi que isso não era possí­vel, a cobrançaa minha ficou enorme. Já fiz tratamento fonoaudiológico e psicológico por muito tempo. Sinto que meu emocional tem muito a ver com minha fala.Cheguei a pedir para minha fonoaudióloga montar um grupo só de gagos e ela concordou. Isso me ajudou muito e a muitos outros. Há momentos de grande fluência e de bloqueios. Não tenho receio de falar ao telefone como antes, resolvo muita coisa nele.Posso dizer que aprendi a me ouvir mais. Faço leituras e gravo minha voz e a acho bem melhor, mas gostaria de mais melhoras. O que poderias me orientar além de exercícos oro-faciais, leituras, gravações, relaxamento, ou seja, mais novidades palpávies para um adulto gago? Antecipadamente agradeço .Otí­lia


Resposta:
Minha querida colega Otilia

Antes de mais nada meus parabéns pela luta empreendida até aqui. Considero você uma vencedora, mas tenho quase certeza que você não se classifica assim. Você falou duas coisas que me chamaram a atenção; as cobranças internas e o fato do seu emocional dominar sua fala. Na minha opinião, que pode não ser correta, o que falta resolver no seu caso é justamente a parte da vergonha de ser gaga, da luta interna para não falar assim e a sensação de não ter o controle sobre sua fala. Não sei o que você considera "novidades palpáveis", mas o que mais me ocorre são os exercícios de controle da fala como Van Ripper aconselha: relaxar os oro-faciais antes de falar, buscar alguma maneira de "empurrar" o ar no momento de bloqueio de modo a ter uma técnica disponível na hora do "pânico" e cortar o bloqueio ou a repetição antes dele acontecer para evitar que o hábito se instale. Sou bem comportamental em matéria de gagueira.

Boa sorte e não desista, você vai acabar vencendo

um abraço
Regina



Nome ou iniciais: Daivys de Sousa Silva
Cidade/Estado: Uberaba/MG
Profissão: Supervisor de Vendas
Pessoa que gagueja? Sim
Familiar de pessoa que gagueja? Não
Postado em: 22/10/2006 10h15min

Pergunta:
A alguns dias atrás tive o curiosidade de ler um livro sobre a gagueira, pesquisei na universidade onde curso Administração de Empresas e encontrei seu livro "A GAGUEIRA",fiquei fascinado com o livro. Achei ótimo e me ajudou bastante, me deu uma abrangência enorme, e me ajudou muito no auto controle da minha gagueira, me inspirou muito e como vc mesma diz "VENCERAM A GAGUEIRA OS QUE A ENFRENTARAM SEM DÓ" NEM PIEDADE". Não tenho uma gagueira muito severa, e em uma boa parte do tempo tempo uma boa fluência, mais depois que li seu livro melhorei ainda mais. Vamos agora a pergunta. Tenho muito vontade de apresentar trabalhos em sala de aula e poder falar sem embaraços na frente de uma platéia, mas fico muito ansioso e não me sinto à vontade e acabo fugindo destas situações, vc acha que chegou a hora de trabalhar este meu medo e enfrentar estas situações de frente ou seria melhor eu conquistar a fluência total para depois encarar este novo desafio? ou será que este desafio pode me ajudar a obter a fluência? OBRIGADO, DAIVYS


Resposta:
Daivys
Fiquei muito sensibilizada com os elogios ao meu livro. Sou uma incansável estudiosa da gagueira e quando fico sabendo que pude ajudar alguém com meus estudos me sinto duplamente realizada. Obrigada.

Você mesmo deu a resposta à sua pergunta: "Venceram os que enfrentaram". Mas esse enfrentar não significa se expor sem mais nem menos. Você precisa estar preparado para isso. Acho que medo e gagueira não combinam, um alimenta o outro. Sua gagueira nitidamente, está sendo alimentada pela ansiedade e pelo medo de falar e possivelmente também, pela vergonha. Procure a tal "fluência total" nos outros e não fique cobrando isso de você. Não tenho tanta certeza que você consiga conquistar a fluência total (que é discutível se seria alcançada por alguém) sem uma ajuda especializada. . Na minha opinião está na hora de um tratamento especifico com fonoaudiólogo para acabar com o que restou dessa gagueira.

Fico torcendo por você, vai em frente.

Um abraço
Regina



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